Victor Candado nasceu em 12 de abril de 1921, na região de Ponta Porã, à época pertencente ao antigo Estado
de Mato Grosso. Filho de Euzébio Candado e Cirila Mareco, integrou uma numerosa
e tradicional família de origem mista paraguaia e espanhola, sendo o terceiro
entre quinze irmãos. Seus pais foram reconhecidos como desbravadores e
pioneiros da região conhecida como “Vale da Esperança”, imprimindo na formação
de Victor valores sólidos como coragem, trabalho árduo, fé e perseverança.
Desde muito cedo, Victor revelou um espírito trabalhador, resiliente e
determinado. Aos 12 anos de idade, iniciou sua vida laboral serrando madeira
com uma grande serra manual de duas extremidades, atividade que exigia força
física, coordenação e resistência. Foi nesse ambiente desafiador que aprendeu o
ofício de carpinteiro, tornando-se um trabalhador habilidoso e versátil. Ao
longo de sua juventude, exerceu também as funções de cerqueiro, abridor de
picadas e ervateiro — este último herdado de seu pai, Dom Euzébio. Na época da
Companhia Mate Laranjeira, destacou-se como “mineiro”, denominação dada aos
trabalhadores da extração da erva-mate, dominando com competência todas as
etapas do processo, desde o plantio até a colheita.
Ainda na infância, por volta de 1928, acompanhou sua família em uma árdua e
longa jornada a pé, partindo da Fazenda Campanário — sede da Companhia Mate
Laranjeira — em direção à localidade de Santa Luzia, hoje Juti. Posteriormente, passaram pela Fazenda São
Luiz, até que, em 1935, fixaram-se definitivamente em Caarapó, onde seu pai adquiriu um sítio. À
época, a região era marcada por mata fechada, isolamento e desafios constantes.
Como o próprio Victor recorda com lucidez: “Aqui tudo era sertão, muita mata e
muita onça”, evidenciando o cenário hostil enfrentado pelos pioneiros.
As responsabilidades familiares e as dificuldades financeiras levaram-no a
trabalhar em fazendas distantes, especialmente na região próxima a Amambai, onde atuou como carpinteiro,
construindo casas e mangueiras (currais), sempre por meio de um trabalho
manual, pesado e extremamente exigente. Mesmo diante de tantas adversidades,
nunca perdeu sua dignidade, seu senso de dever e sua disposição incansável para
o trabalho.
O acesso à educação formal ocorreu tardiamente, já na fase adulta, após
garantir que todos os seus filhos estivessem alfabetizados. Com admirável
humildade e sede de aprendizado, cursou o antigo MOBRAL, demonstrando que o
conhecimento não tem idade para ser buscado.
Na vida pessoal, Victor Candado construiu uma família sólida e respeitável.
Foi casado, desde 1957, com Glegória Martines Candado, carinhosamente conhecida
como Dona Romana, com quem viveu uma união longa, harmoniosa e exemplar por 58
anos, até o falecimento de sua esposa. Dessa união nasceram oito filhos: Adão,
Apolinário, Anastácio, Eva, Polinária, Reginaldo, Bernarda e Julio César. De
seu primeiro casamento, teve ainda os filhos Eudóxio e Maurício. Ao longo dos
anos, viu sua família crescer de forma significativa, sendo abençoado com 30
netos e 17 bisnetos, tornando-se o alicerce de uma descendência marcada por
valores éticos, união e respeito.
Homem de fé profunda, devoto e coerente com seus princípios, Victor sempre
foi atuante na vida religiosa, sendo católico fervoroso e ministro da
Eucaristia. Sua religiosidade se expressa não apenas em palavras, mas em
atitudes concretas de amor ao próximo, dedicação comunitária e serviço
voluntário. Mesmo em idade avançada, com seus 94 anos, mantém-se ativo,
visitando doentes em hospitais e residências, levando conforto espiritual,
palavras de esperança e gestos de solidariedade.
Victor Candado é, acima de tudo, um exemplo vivo de coragem, humildade,
sabedoria, simplicidade e integridade. Sua trajetória representa a essência do
homem pioneiro, que, com esforço silencioso e perseverante, ajudou a construir
não apenas sua própria história, mas também a história de uma comunidade
inteira. Sua vida permanece como legado inspirador para familiares, amigos e
para todos aqueles que reconhecem o valor de uma existência pautada no trabalho
digno, na fé inabalável e no amor ao próximo.
Victor, o pioneiro, um dos mais antigos moradores do município faleceu aos 104 anos no dia 17 de abril de 2025.